Alfredo Moreira Filho

De Viçosa ao Amazonas: quando a teoria encontrou o terreno

Lorenzo Bellieri
5 Min de leitura

Alfredo Moreira Filho, licenciado em Engenharia Agronómica pela Universidade Federal de Viçosa em 1971, foi trabalhar para o Amazonas logo após concluir a formação, uma transição que concentra, em poucos meses, uma das experiências mais reveladoras sobre aquilo que a formação académica proporciona e aquilo que não consegue proporcionar: a distância entre o que foi aprendido e o que o primeiro contexto real de trabalho exigiu.

O intervalo entre a sala de aula e o terreno

A Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, é uma das instituições de referência em ciências agrárias no Brasil, com investigação consolidada, um corpo docente experiente e infraestruturas de ensino reconhecidas. A formação que oferecia no início da década de 1970 era sólida no contexto para o qual tinha sido concebida: a agricultura nas condições do Centro-Sul brasileiro.

O Amazonas de 1971 representava um contexto completamente diferente. Solos de várzea, um regime fluvial que determinava o que podia ser cultivado e em que momento, culturas locais sem paralelo com aquilo que tinha sido estudado e populações ribeirinhas com práticas agrícolas centenárias que não constavam de nenhum manual técnico disponível. A licenciatura tinha proporcionado metodologia, mas o conhecimento específico precisava de ser construído a partir do zero.

Porque é inevitável a distância entre formação e contexto?

A formação académica é, por definição, generalista e baseada no conhecimento acumulado sobre contextos que já foram estudados com profundidade suficiente para gerar referências. Contextos novos, complexos ou radicalmente diferentes daqueles que a investigação académica já analisou não estão nos livros: estão no terreno e só podem ser compreendidos por quem está disposto a reconhecer que aquilo que estudou não é suficiente para o trabalho que precisa de realizar.

Ao chegar ao Amazonas com uma licenciatura em Agronomia por uma das melhores universidades do país, Alfredo Moreira Filho teve de passar pelo processo de reconhecer que a formação era o ponto de partida, e não o ponto de chegada. A metodologia de resolução de problemas aprendida em Viçosa continuava a ser útil, mas o conhecimento específico sobre aquele território precisava de ser desenvolvido no terreno, através da observação direta e da experimentação prática.

O que ensina este intervalo sobre o valor da formação?

O intervalo entre aquilo que a universidade ensina e aquilo que o primeiro contexto real exige não significa que a universidade tenha falhado. Demonstra que o papel da universidade não é formar profissionais preparados para qualquer contexto específico, mas proporcionar-lhes capacidade analítica, método e disponibilidade para continuarem a aprender em qualquer contexto que encontrem.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Os profissionais que compreendem isto desde cedo chegam ao primeiro emprego com a pergunta certa: não “o que sei que se aplica aqui?”, mas “o que exige este contexto específico que eu ainda não aprendi?”. A segunda pergunta é muito mais produtiva e muito menos comum do que deveria ser.

A experiência amazónica como acelerador da aprendizagem

Trabalhar num ambiente radicalmente diferente daquele em que ocorreu a formação proporciona uma aprendizagem acelerada, porque a diferença entre o conhecimento disponível e o conhecimento necessário é suficientemente grande para obrigar o profissional a questionar constantemente as suas premissas, em vez de aplicar soluções conhecidas a situações igualmente conhecidas.

Alfredo Moreira Filho, ao longo dos anos de atividade técnica no Amazonas, construiu um conjunto de conhecimentos sobre gestão em ambientes de elevada complexidade que poderia ter demorado décadas a desenvolver num contexto mais próximo daquele que tinha estudado. A distância entre Viçosa e Itacoatiara foi, paradoxalmente, um acelerador da sua formação que nenhuma especialização adicional poderia ter substituído.

O que perdem os gestores formados em contextos homogéneos?

Os profissionais que iniciaram a carreira em contextos próximos da sua formação académica desenvolvem mais rapidamente conhecimentos especializados num determinado domínio, mas têm maior dificuldade em desenvolver a capacidade de atuar em ambientes desconhecidos. A familiaridade com o contexto reduz a necessidade de questionar pressupostos, o que diminui o ritmo da aprendizagem adaptativa.

Ao transitar da Engenharia Agronómica para a gestão empresarial, décadas mais tarde, a capacidade de lidar com o desconhecido desenvolvida na Amazónia tornou-se um ativo fundamental, revelando-se tão valiosa na segunda fase da carreira como qualquer conhecimento técnico específico adquirido na primeira, uma competência aperfeiçoada ao longo da trajetória de Alfredo Moreira Filho.

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