Para o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, uma das queixas mais comuns entre pacientes não está relacionada apenas ao tratamento recebido, mas à sensação de não serem verdadeiramente ouvidos durante o atendimento. Em um momento em que a saúde conta com recursos cada vez mais avançados, muitas pessoas continuam valorizando algo que não depende de tecnologia: a atenção dedicada às suas histórias, dúvidas e preocupações.
Nos últimos anos, a discussão sobre humanização da saúde ganhou força justamente porque profissionais e instituições passaram a perceber que o cuidado vai além de exames, diagnósticos e prescrições. A forma como o paciente é acolhido e compreendido também influencia sua experiência e sua relação com o tratamento. Em uma sociedade marcada pela velocidade e pelo uso crescente da tecnologia, a escuta voltou a ocupar um papel central nas discussões sobre atendimento humanizado.
Mais do que uma habilidade de comunicação, ela passou a ser vista como uma ferramenta capaz de fortalecer vínculos, gerar confiança e contribuir para um cuidado mais completo. Interessado em saber mais ? Confira, a seguir.
Por que a escuta ganhou protagonismo no cuidado em saúde?
Durante muitos anos, a assistência em saúde esteve fortemente associada ao diagnóstico e ao tratamento de doenças. Embora esses aspectos continuem sendo fundamentais, a compreensão sobre o cuidado tornou-se mais ampla. Atualmente, profissionais e instituições reconhecem que conhecer a realidade do paciente também é importante para entender fatores que podem influenciar sua saúde e sua qualidade de vida.
Atrelado a isso, cada pessoa vivencia sintomas, limitações e preocupações de maneira diferente. Por essa razão, ouvir com atenção permite compreender aspectos que muitas vezes não aparecem em exames ou avaliações técnicas. Yuri Silva Portela ainda reforça que a escuta qualificada ajuda a construir uma relação de confiança e favorece uma compreensão mais completa das necessidades individuais de cada paciente.
Como a tecnologia mudou a relação entre profissionais e pacientes?
A tecnologia trouxe benefícios inegáveis para a área da saúde. Ferramentas digitais, prontuários eletrônicos, exames avançados e recursos de monitoramento permitem acompanhar informações de forma cada vez mais detalhada. Essas inovações contribuem para diagnósticos mais precisos e para uma tomada de decisão baseada em dados cada vez mais consistentes.

Entretanto, especialistas alertam que a tecnologia não substitui o contato humano. Em muitos casos, existe o risco de que a atenção se concentre apenas nos resultados e indicadores, deixando em segundo plano aspectos subjetivos que também influenciam o bem-estar das pessoas. A partir do que analisa o doutor Yuri Silva Portela, o desafio atual não está em escolher entre tecnologia e humanização, mas em encontrar equilíbrio entre esses dois elementos.
De que forma a escuta contribui para um atendimento mais humanizado?
Quando uma pessoa se sente ouvida, ela tende a participar mais ativamente das decisões relacionadas à própria saúde. Esse processo fortalece a confiança, reduz inseguranças e favorece uma comunicação mais clara entre profissionais, pacientes e familiares. Como resultado, torna-se mais fácil compreender expectativas, dificuldades e objetivos relacionados ao tratamento ou ao acompanhamento realizado.
Além disso, a escuta também ajuda a identificar fatores emocionais, sociais e comportamentais que podem interferir diretamente na saúde. Em muitos casos, compreender a rotina, os hábitos e as preocupações do paciente permite construir estratégias mais adequadas à sua realidade. Por isso, a humanização da saúde está cada vez mais associada à capacidade de enxergar a pessoa para além de um diagnóstico ou de um conjunto de sintomas.
Por que esse tema é especialmente importante para a população idosa?
O envelhecimento costuma envolver situações que exigem acompanhamento contínuo e uma visão mais ampla sobre a saúde. Questões relacionadas à autonomia, à qualidade de vida, à convivência familiar e ao bem-estar emocional frequentemente fazem parte da rotina de muitos idosos e influenciam diretamente a forma como eles enfrentam desafios relacionados ao envelhecimento.
Nesse cenário, a escuta torna-se uma ferramenta ainda mais relevante. Yuri Silva Portela destaca que compreender as experiências, expectativas e necessidades dos idosos contribui para um cuidado mais individualizado e respeitoso. Mais do que tratar condições específicas, o atendimento humanizado busca preservar dignidade, autonomia e qualidade de vida durante todas as etapas do envelhecimento.
Humanizar o cuidado continua sendo um desafio necessário
Em uma época marcada por avanços tecnológicos cada vez mais rápidos, a valorização da escuta reforça uma ideia simples, mas fundamental: a saúde envolve pessoas, histórias e experiências que não podem ser reduzidas apenas a números ou resultados de exames. Embora a tecnologia continue ampliando possibilidades, ela não elimina a necessidade de relações humanas construídas com atenção e respeito.
Por fim, Yuri Silva Portela indica que a humanização da saúde depende da capacidade de equilibrar conhecimento técnico e sensibilidade. Nesse contexto, ouvir continua sendo uma das ferramentas mais importantes para promover um cuidado mais completo, fortalecendo vínculos, ampliando a confiança e contribuindo para uma experiência mais acolhedora para pacientes e familiares.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

