Marcello José Abbud

Como a honestidade na medição de indicadores pode impactar a performance ambiental das empresas?

Diego Velázquez
7 Min de leitura

Marcello José Abbud explica que relatórios ambientais bonitos existem aos montes; operações que melhoram de verdade são mais raras. A diferença entre uma coisa e outra quase nunca está no discurso. Está nos indicadores de sustentabilidade que a empresa escolhe acompanhar, e na honestidade com que os mede.

O indicador cumpre uma função que o discurso não alcança: obriga a empresa a se comparar consigo mesma, mês após mês. Sem essa régua, qualquer narrativa se sustenta. Com ela, só se sustenta o que de fato aconteceu. A questão passa a ser, portanto, quais números merecem entrar nessa régua, e por quê.

Dez indicadores dão conta do essencial. Eles se organizam em quatro grupos: o que a empresa consome, o que devolve ao ambiente, como o desempenho se relaciona com a produção e o quanto a gestão alcança pessoas e fornecedores. Prossiga a leitura e veja que é por esse caminho que o texto segue.

O que a empresa consome? Energia, água e materiais

Pense em uma planta industrial cuja fatura de energia sobe sem explicação aparente. Só quando a medição é desagregada por setor aparece o culpado: um sistema de ar comprimido antigo, operando fora de hora. Marcello José Abbud aponta que cenas assim resumem o primeiro indicador, o consumo de energia, cujo valor está no detalhe, não no total. A fatura consolidada esconde; a medição por etapa, turno e equipamento revela.

O segundo indicador, o consumo de água, segue a mesma lógica e costuma guardar os desperdícios mais antigos da operação, de vazamentos crônicos a rotinas de limpeza nunca revisadas. O terceiro fecha o grupo de entrada: o uso de materiais, que compara quanto insumo entra no processo com quanto dele vira produto final. A distância entre esses dois números é desperdício com nome, peso e preço.

KPIs ambientais de saída: resíduos, destinação e emissões

Na outra ponta do processo estão os KPIs ambientais de saída. O quarto indicador é a geração total de resíduos, medida em peso e separada por tipo, porque um quilo de resíduo perigoso e um quilo de papelão contam histórias muito diferentes. O quinto é a taxa de desvio de aterro: do total gerado, quanto foi reaproveitado, reciclado ou valorizado em vez de simplesmente enterrado. O sexto acompanha as emissões de gases de efeito estufa associadas à operação e à logística.

Entre os seis primeiros, a taxa de desvio de aterro é a que Marcello José Abbud esclarece como mais reveladora, porque conecta a rotina interna à infraestrutura fora do portão: de nada adianta separar bem o resíduo se o destino final continua sendo o mesmo. O indicador expõe, ao mesmo tempo, a maturidade da empresa e a qualidade das soluções de tratamento disponíveis na região onde ela opera.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Intensidade e conformidade: os números que dão contexto

O sétimo indicador corrige uma distorção comum: valores absolutos caem quando a produção cai e sobem quando ela cresce, sem que isso diga nada sobre eficiência. A intensidade resolve o problema ao dividir consumo, resíduos ou emissões pela unidade produzida, seja tonelada, peça ou faturamento. Uma empresa pode gerar mais resíduo total e, ainda assim, estar melhorando, desde que gere menos por unidade. Sem esse ajuste, o monitoramento premia recessão e pune crescimento.

O oitavo indicador é o de conformidade: licenças válidas, condicionantes atendidas, autuações recebidas. Marcello José Abbud pontua que esse número funciona como termômetro justamente por parecer burocrático: quem tropeça no básico legal dificilmente sustenta metas voluntárias mais ambiciosas. A régua regulatória é o piso do desempenho ambiental, nunca o teto.

Pessoas e cadeia: o monitoramento que sai dos muros da empresa

Os dois últimos indicadores analisam simultaneamente aspectos internos e externos da empresa. O nono indicador avalia a cadeia de fornecimento, verificando qual percentual dos fornecedores relevantes passou por uma avaliação socioambiental e quantos contratos incorporam critérios desse tipo. O décimo indicador foca nas pessoas, medindo as horas de capacitação em temas ambientais, a participação em programas internos e o engajamento nas rotinas de separação e redução de resíduos. É importante ressaltar que nenhuma meta ambiental se sustenta se as compras não consideram esses critérios e a equipe não compreende sua importância.

Quantos indicadores de sustentabilidade uma empresa deve monitorar? A resposta é menos complexa do que parece: um conjunto de oito a doze indicadores bem selecionados, medidos com frequência e de maneira consistente, pode fornecer informações mais valiosas do que uma infinidade de métricas coletadas sem rigor e revisadas apenas uma vez por ano.

A profundidade dessa resposta reside no método, e não na quantidade. Marcello José Abbud destaca que o valor de um indicador é derivado de sua série histórica: um número isolado não revela se a empresa está melhorando ou piorando, apenas indica sua posição atual. Medir com parcimônia, de forma contínua e consistente, é mais eficaz do que qualquer painel sofisticado que receba dados de maneira irregular. A consistência é o que transforma dados em tendências, e tendências em decisões informadas.

A diferença entre medir e prestar contas

Indicadores nasceram como instrumento de gestão e viraram, em muitas empresas, peça de comunicação. A inversão é sutil e perigosa: quando o número existe para o relatório, escolhe-se o número que fica bem no relatório. Quando existe para a operação, escolhe-se o que dói. Empresas que avançam de verdade costumam exibir séries imperfeitas, com retrocessos visíveis e metas não batidas, porque medem para corrigir, não para exibir.

Talvez esse seja o teste final de qualquer painel de sustentabilidade: ele já produziu alguma decisão desconfortável? Se todos os números só confirmam acertos, o problema não está na operação, está na régua. O indicador que nunca incomoda não está monitorando nada; está apenas decorando a parede.

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