Portugal quer atrair especialistas em inteligência artificial com vistos mais rápidos e investimento público

Diego Velázquez
6 Min de leitura

Governo prevê 25 milhões de euros para a Administração Pública, novo centro de excelência em IA e semana nacional dedicada ao tema.

Portugal decidiu assumir um papel mais ativo na corrida internacional pelo talento em inteligência artificial, através de um conjunto de medidas que combinam simplificação de vistos, investimento público e iniciativas de sensibilização junto de estudantes e empresas. Segundo o plano avançado pelo Governo e noticiado pelo ECO, o objetivo passa por acelerar a atração de especialistas estrangeiros para a área, ao mesmo tempo que se reforça a capacidade interna do país em áreas como a Administração Pública, a academia e o ecossistema empresarial. A pergunta que muitos portugueses ligados à área tecnológica colocam é direta: este plano será suficiente para colocar Portugal numa posição competitiva face a outros países europeus que já avançaram com estratégias semelhantes?

O anúncio surge num momento em que vários responsáveis do setor têm alertado para o risco de a Europa, e Portugal em particular, ficar atrás na corrida global pela inteligência artificial. Num painel realizado durante a Web Summit Rio, o diretor executivo da Startup Portugal admitiu que a Europa está a ficar atrás quando comparada com outras regiões do mundo, apontando a retenção de talento, os impostos e a burocracia como obstáculos concretos que continuam a travar o avanço do país nesta área (fonte: dinheirovivo.dn.pt).

Investimento público e formação como pilares da estratégia

Um dos elementos centrais do plano governamental é o investimento de 25 milhões de euros destinados especificamente à adoção de soluções de inteligência artificial na Administração Pública, com medidas a serem implementadas a partir do primeiro semestre de 2026. Entre as iniciativas previstas está a criação de um Centro de Excelência em IA dedicado à Administração Pública, cuja missão passa por desenvolver, testar e escalar soluções aplicadas a serviços públicos, com particular atenção a áreas sensíveis como saúde, justiça e defesa. Este centro deverá ainda coordenar a articulação entre diferentes entidades públicas, além de promover parcerias estratégicas com universidades e empresas tecnológicas, segundo o detalhe do plano avançado pelo ECO.

Na vertente académica, o Governo prevê a criação de um suplemento financeiro dedicado a doutoramentos e projetos de investigação em áreas ligadas à responsabilidade da inteligência artificial, com destaque para abordagens interdisciplinares que combinem engenharia com ciências sociais e humanas. Entre as áreas privilegiadas estão temas como justiça social e desigualdade associada à IA, ética e filosofia da tecnologia, psicologia cognitiva na interação entre humanos e sistemas inteligentes, economia da inteligência artificial e o seu impacto no mercado de trabalho, além de questões relacionadas com qualidade metrológica e auditoria de algoritmos. Esta aposta reflete a perceção de que a área de inteligência artificial já é aquela que regista maior carência de talento especializado no setor tecnológico português, com a procura por profissionais qualificados a crescer significativamente ao longo dos últimos anos, de acordo com análises do setor.

Semana Nacional da IA e o desafio de reter talento

Para além das medidas estruturais, o Governo prepara também iniciativas de sensibilização pública, entre as quais se destaca a criação da Semana Nacional da Inteligência Artificial, prevista para arrancar no segundo semestre de 2026. A iniciativa deverá incluir demonstrações práticas, casos de uso reais e eventos abertos ao público, distribuídos por espaços educativos e culturais em todo o território nacional. Paralelamente, a campanha designada Geração IA pretende inspirar jovens a seguirem carreiras ligadas à área tecnológica, promovendo oportunidades académicas, técnicas e profissionais dentro do ecossistema português de inteligência artificial.

Estas medidas surgem também no seguimento de outros movimentos recentes no setor tecnológico nacional, como o desenvolvimento do Amália, um modelo de linguagem artificial adaptado ao português, e a escolha de Lisboa por parte de empresas internacionais como sede europeia, exemplo referido a propósito da FuriosaAI, que aposta na eficiência energética dos seus chips como forma de reduzir a dependência de fornecedores dominantes do mercado. Ainda assim, os especialistas do setor mantêm-se cautelosos quanto à velocidade de execução destas medidas, lembrando que a competição internacional por talento em inteligência artificial é intensa e que outros países europeus e não europeus continuam a lançar incentivos fiscais e regulatórios semelhantes, o que pode diluir a vantagem que Portugal procura construir com este pacote de iniciativas.

O sucesso desta estratégia dependerá, em larga medida, da capacidade do país em transformar anúncios em resultados concretos dentro dos prazos definidos, algo que exigirá acompanhamento próximo por parte de empresas, universidades e da própria Administração Pública. Enquanto isso, o debate sobre como reter talento qualificado, reduzir burocracia e tornar o ambiente fiscal mais competitivo continuará a marcar a discussão sobre o futuro da inteligência artificial em Portugal, num momento em que o país procura consolidar a sua posição no mapa tecnológico europeu sem perder terreno para economias que já avançaram mais rapidamente nesta área.

Fontes consultadas: eco.sapo.pt, dinheirovivo.dn.pt, thenextbigidea.pt

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