Ernesto Kenji Igarashi

A verdade por detrás da experiência: como a falta de atualização pode ter um custo elevado?

Diego Velázquez
9 Min de leitura

Ernesto Kenji Igarashi, com a sua experiência como especialista em segurança institucional, observa que há uma frase que surge em praticamente todas as ações de reciclagem profissional, normalmente dita por quem tem mais anos de carreira: “Faço isto há vinte anos.” Costuma ser verdade. E costuma ser precisamente a razão pela qual essa pessoa precisa de estar ali.

A experiência prolongada produz um efeito silencioso: quanto mais consolidada está a rotina, menor é a probabilidade de o profissional perceber que ela deixou de acompanhar as mudanças que aconteceram à sua volta.

Neste contexto, a requalificação não representa a correção de uma deficiência. É uma manutenção preventiva de uma competência que se desgasta sem aviso, sem uma quebra visível de desempenho e sem que ninguém apresente queixas, até ao dia em que surge uma situação fora do previsto e a diferença se torna evidente de uma só vez. A crença de que quem tem muitos anos de experiência dispensa atualização é uma das mais difundidas no setor e, ao mesmo tempo, uma das mais equivocadas.

A experiência cria atalhos e os atalhos envelhecem

A repetição gera automatismos, e os automatismos são positivos: permitem poupar atenção para aquilo que realmente exige capacidade de decisão. O problema é que cada atalho foi construído num contexto específico, com determinado tipo de público, determinado equipamento, determinadas regras e um determinado padrão de risco. Quando esse contexto muda e o atalho permanece, continua a fornecer respostas rápidas, confiantes e desatualizadas. O histórico de sucessos reforça a confiança precisamente no momento em que ela deixa de ser justificada, e ninguém costuma pedir uma segunda opinião sobre algo que sempre funcionou.

Um controlador de acessos habituado a reconhecer pessoas pelo rosto trabalha eficazmente num edifício pequeno e estável. Se for transferido para uma operação com elevada rotatividade e centenas de prestadores de serviços, continuará a confiar na memória visual, que, nesse novo cenário, protege menos do que dificulta, porque cria exceções quando o procedimento exigia um registo formal. Ernesto Kenji Igarashi observa que o profissional raramente sente falta daquilo cuja existência desconhece, e é precisamente isso que torna a autoavaliação um instrumento pouco eficaz nesta área.

O que muda entre duas ações de formação?

A lista é maior do que parece. Os protocolos internos são revistos após cada ocorrência relevante. Novos equipamentos entram em funcionamento com lógicas operacionais diferentes. As regras relativas à proteção de dados pessoais alteraram aquilo que pode ser registado, durante quanto tempo esses dados podem ser conservados e quem lhes pode aceder, modificando até a forma de elaborar um simples relatório de portaria. O perfil do risco também evoluiu: exposição de rotinas nas redes sociais, abordagens através de mensagens em nome da chefia e utilização de drones sobre áreas anteriormente consideradas reservadas.

Nada disto chega ao profissional de serviço sob a forma de um aviso formal. Surge como estranheza: aquele momento em que o procedimento habitual gera uma dúvida que ninguém na equipa consegue esclarecer corretamente, e a resposta escolhida acaba por ser a que menos incomoda o cliente. A acumulação dessas situações, sem espaço para estudo ou atualização, transforma-se numa prática incorreta que se consolida com o tempo.

Existe ainda uma mudança nas expectativas que poucas pessoas contabilizam. Atualmente, quem contrata exige registos escritos, análises prévias, planos documentados e articulação com o departamento jurídico, aspetos que anteriormente eram deixados ao bom senso. Ernesto Kenji Igarashi considera que quem se formou noutra época aprendeu sobretudo a resolver problemas, e não necessariamente a documentá-los, descobrindo essa lacuna apenas quando a documentação passa a ser exigida.

Reciclagem profissional obrigatória e reciclagem que transforma a prática

Existe a reciclagem que serve para renovar uma certificação e existe aquela que realmente altera comportamentos. Ambas podem acontecer na mesma formação, embora muitas vezes isso não aconteça. A primeira é cumprida por obrigação, com presença registada e conteúdos repetidos da edição anterior. A segunda exige que o formando leve para a sala um problema real da sua operação, discuta soluções com quem já enfrentou situações semelhantes e saia com uma decisão diferente daquela que tomaria antes de participar na formação.

Ernesto Kenji Igarashi
Ernesto Kenji Igarashi

De quanto em quanto tempo deve ser feita a reciclagem profissional?

Nas profissões regulamentadas, a periodicidade é definida pela legislação aplicável e está normalmente associada à validade da respetiva certificação profissional. Fora dessas situações, existe um critério mais útil: sempre que a tecnologia, a regulamentação ou o tipo de risco associado à função mudar e o profissional não tiver estudado essas alterações, a reciclagem já está em atraso.

Este critério é mais exigente do que o calendário, mas também mais simples de aplicar no dia a dia. Nesse sentido, Ernesto Kenji Igarashi identifica alguns sinais de desatualização que surgem muito antes de terminar qualquer prazo: procedimentos executados sem que a pessoa saiba explicar a razão da sua existência, equipamentos que evita utilizar porque nunca aprendeu verdadeiramente a operá-los ou relatórios preenchidos da mesma forma há anos apenas porque “sempre foi assim”. Cada um destes sinais revela uma parte da função que passou a ser desempenhada por mera inércia.

O que procura um empregador num currículo atualizado?

Do outro lado da mesa, formação recente não é apenas um elemento decorativo no currículo. É uma forma de reduzir riscos. Um empregador sujeito a auditorias, exigências contratuais ou condições impostas por apólices de seguro precisa de demonstrar que a sua equipa possui qualificações atualizadas e tende a privilegiar quem já apresenta essa situação regularizada. Entre dois candidatos com percursos semelhantes, o fator de desempate costuma ser a capacidade de demonstrar aprendizagem recente e de falar com naturalidade sobre as mudanças ocorridas no setor, sem recorrer a frases feitas decoradas para uma entrevista de poucos minutos.

O mesmo acontece dentro da própria organização. Quem se mantém atualizado tende a assumir operações mais complexas, eventos mais sensíveis e funções de coordenação. Não se trata de uma recompensa pelo esforço, mas de uma decisão racional de quem distribui responsabilidades e precisa de confiar nas pessoas a quem as atribui. Ernesto Kenji Igarashi considera que a atualização técnica funciona, na prática, como uma carta de recomendação escrita pelo próprio profissional, com a vantagem de poder ser comprovada.

Quem deixa de aprender continua a trabalhar durante algum tempo

A obsolescência profissional não avisa quando chega. Assim, Ernesto Kenji Igarashi conclui que ela se manifesta através de pequenas hesitações perante situações novas, de relatórios incapazes de sustentar uma discussão técnica ou de equipamentos que permanecem desligados porque ninguém domina verdadeiramente a sua utilização. A competência profissional não é um património adquirido para sempre: é uma prática que precisa de ser renovada regularmente, sob pena de se transformar apenas numa recordação de competência, contada na primeira pessoa e sem possibilidade de ser demonstrada. No dia em que surge o imprevisto, quem responde é a formação mais recente, e não o crachá mais antigo.

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