Felipe Rassi

Empresas em crise também geram oportunidades: O papel dos créditos estressados nesse cenário, segundo Felipe Rassi

Diego Velázquez
7 Min de leitura

Como menciona Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, a crise de uma empresa raramente é boa notícia para seus credores, funcionários e parceiros. Mas para um perfil específico de investidor, com capacidade analítica, tolerância à complexidade e horizonte de tempo adequado, o colapso financeiro de uma organização pode abrir janelas de oportunidade que não existiriam em condições normais de mercado. Os créditos estressados são o instrumento por meio do qual essas oportunidades se tornam acessíveis: permitem que investidores adquiram, a preço de desconto, direitos sobre ativos ou fluxos de caixa de empresas que o mercado convencional já abandonou. 

Se você quer entender a lógica por trás de um dos mercados mais sofisticados do sistema financeiro, este artigo tem o que você procura.

Por que a crise empresarial é o ambiente natural do crédito estressado?

Quando uma empresa enfrenta dificuldades financeiras severas, sua relação com os credores muda de forma fundamental. O que era uma obrigação contratual a ser cumprida em prazo determinado se transforma em uma disputa sobre quem receberá quanto e quando, num contexto em que os recursos disponíveis são insuficientes para satisfazer todos os credores. Nesse ambiente de escassez, os créditos perdem valor de mercado na proporção direta da incerteza sobre seu recebimento. Credores que precisam de liquidez imediata, que não têm estrutura para acompanhar um processo de recuperação judicial longo ou que simplesmente preferem realizar a perda agora a aguardar um desfecho incerto estão dispostos a vender seus créditos com desconto significativo.

De acordo com Felipe Rassi, esse mecanismo cria o fluxo de ativos que alimenta o mercado de créditos estressados. Do lado da oferta, estão credores que querem sair da posição. Do lado da demanda, estão investidores especializados que acreditam poder extrair valor de um ativo que o mercado está precificando com pessimismo excessivo. O ponto de equilíbrio entre essas forças é o preço de cessão, e é na capacidade de avaliar esse preço melhor do que a média do mercado que reside a vantagem competitiva dos investidores bem-sucedidos nesse segmento.

O Brasil tem características estruturais que favorecem o desenvolvimento desse mercado. O volume de processos de recuperação judicial cresceu significativamente na última década, com ondas pronunciadas em períodos de contração econômica. O sistema judiciário, embora com reconhecidas ineficiências, tem avançado na previsibilidade das decisões em matéria falimentar, especialmente após as reformas na Lei de Falências ocorridas em 2020 e 2021. Esse ambiente cria um estoque crescente de créditos em situação de estresse, com variedade suficiente para que investidores com diferentes perfis de risco encontrem oportunidades adequadas.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Quais são as formas de participar do mercado de créditos estressados no Brasil?

A participação nesse mercado pode ocorrer de diferentes formas, com distintos níveis de complexidade operacional, capital exigido e exposição a risco. A forma mais direta é a aquisição de créditos individuais por meio de cessão de crédito: o investidor compra o direito de crédito de um cedente, pelo preço negociado, e passa a ser o responsável pela gestão da recuperação. Segundo o especialista em créditos estressados, Felipe Rassi, essa modalidade permite maior controle sobre a estratégia de cada ativo, mas exige capacidade jurídica e operacional para gerenciar a carteira individualmente.

A alternativa mais estruturada são os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, conhecidos como FIDCs, especificamente aqueles com mandato para aquisição de créditos não performados ou com alta inadimplência. Esses veículos permitem que investidores qualificados ou profissionais participem do mercado por meio de cotas, beneficiando-se da diversificação da carteira e da gestão profissional, sem precisar desenvolver internamente toda a infraestrutura de análise e recuperação. A regulamentação específica dos FIDCs pela CVM oferece um nível de governança e transparência que pode ser relevante para determinados perfis de investidor.

Como elucida Felipe Rassi, há ainda a possibilidade de participação indireta por meio de parcerias com escritórios especializados em recuperação de crédito, onde o investidor aporta capital e o escritório conduz a análise, aquisição e gestão dos créditos em troca de participação nos resultados. Esse modelo é especialmente relevante para investidores com capital disponível, mas sem a expertise interna para operar diretamente no segmento. A escolha entre essas modalidades depende do volume de capital disponível, do nível de envolvimento desejado na gestão e do apetite por controle direto sobre cada posição.

Quando o desconto reflete oportunidade e quando reflete ausência de valor?

Nem todo crédito barato é uma oportunidade, e essa distinção é o ponto central que separa investidores que geram retorno consistente dos que acumulam carteiras de ativos irrecuperáveis. Um crédito com desconto de 90% sobre o valor de face pode representar uma oportunidade extraordinária se o devedor tem patrimônio identificável e o processo judicial está próximo de uma execução bem-sucedida. Mas pode representar simplesmente uma perda confirmada se o devedor não tem patrimônio, o processo está prescrito e não há qualquer perspectiva de acordo.

Conforme destaca Felipe Rassi, a diferença entre esses dois cenários é identificada pela qualidade da análise prévia à aquisição. Créditos que oferecem oportunidade real têm pelo menos um dos seguintes atributos: garantia real executável com valor de mercado verificável, devedor com patrimônio localizável e capacidade de pagamento ainda que limitada, perspectiva de acordo motivada por interesse específico do devedor em regularizar a situação, ou posição em processo de recuperação judicial com plano aprovado que prevê pagamento acima do preço de aquisição.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

Partilhe este artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário